“O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do cotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.”
José Saramago

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Quando eu era um tico insignificante de gente, tinha muita dificuldade com a escrita. Fiz atividades extras e reforços semanais na escola, e a professora passava mais tempo do meu lado, do que dando aula. Algumas palavras simplesmente não conseguia escrever. Tinha uma específica, na qual, sempre – quando digo sempre, quero dizer, absolutamente todas as vezes –  eu errava, mas não errava porque não sabia, e sim porque, na minha cabeça, aquela palavra não existia, ou melhor, eu não conseguia compreendê-la de jeito nenhum. 

Trilhões de ditados, e a professora insistia em pedir aquela palavra, e mesmo assim, verificando todas as vezes o meu erro, ela não entrava na minha mente em sua forma “correta”, simplesmente não entrava.

Certo dia Dna. Amélia estava a corrigir os ditados da semana anterior e de repente perdeu o pouco de paciência que ainda tinha comigo. Aproximou-se e gritou: 

– Eu desisto de te ensinar! Você está me fazendo de idiota, né?

Estremeci e disse:

– Claro que não, professora! Eu tenho muita dificuldade com essa palavra.

E ela mais nervosa ainda, aumentou o tom:

– MEU DEUS DO CÉU! Qual a dificuldade de escrever a palavra CRESCER?

Você escreve CRER e SER todas as vezes! Por que faz isso? Para me tirar do sério?

Me encolhi, e calei-me.

Naquela época eu não tinha muita ideia do porquê aquilo acontecia, mas hoje entendo. Na verdade, eu até sabia escrever a palavra “crescer”, mas ela me assustava. Eu tinha medo dela, e acreditava que se eu a escrevesse, aquilo iria acontecer e muito rápido. Então com minha cabeça ingênua, porém criativa, achei uma forma de me livrar dela! Eu preferia crer e ser, a crescer.

 

Acho que prefiro até hoje.