Eu me sentia vazio e por me sentir vazio precisava preencher-me. Dei uma olhada na gaveta de cuecas, olhei no armário de copos e na fruteira. Procurei por algo no lixo da cozinha, e mais uma vez, sem sucesso. Estava tornando-me descontente e amargo, pois nada encontrava. No ápice de minha amargura dei-me conta de que não acharia nada empolgante nas bagunças de minha vida. Fui às ruas. Aos parques. Coloquei-me em meio a multidões. Andei entre mendigos, socialites, jogadores de futebol e secretárias. Fui a cafés, praças e favelas. Tornei-me drogado e alcoólatra. Larguei as drogas e a bebida. Morei em grandes hotéis e pequenas pousadas. Arranjei grandes trabalhos, fui a grandes eventos. Passei anos tentando preencher-me, quando percebi já haviam pelos brancos em meu rosto e em minha cabeça. Minha pele começara a enrrugar. Estava velho e cansado. Passara anos e anos buscando por algo que nunca descobrira o que era. Estava tão cansado da infelicidade de minha busca, que precisava voltar pra casa. Não tinha mais disposição, não tinha mais ânimo. Abri a porta e tudo estava no mesmo lugar de sempre, mas com muita poeira. Isso pouco me importava. Tirei os sapatos e deitei na cama. Ali viria a confirmação. O que eu havia buscado em outros lugares, em outras pessoas, em outros ares, havia estado sempre ali, tão perto… tão perto que tornei-me cego por não conseguir ver. Estava dentro de mim, e era exatamente o que sou, pois apenas o que sou é capaz de me preencher.

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