Talvez você não esteja amando…

Há quem diga que estar em um relacionamento sério com alguém prova que já é amor. Eu digo que não, talvez você não esteja amando.

Se o seu “relacionamento sério” está no Facebook, mas não está nas suas atitudes na festa de aniversário do seu melhor amigo, talvez você não esteja amando.

Se você demonstra seu carinho na legenda de uma foto, mas não dá carinho no dia-a-dia, talvez você não esteja amando.

Se você diz para seus amigos que não pode sair pra ficar com a patroa, mas quando chega em casa prefere o videogame a ela, talvez você não esteja amando.

Se você diz que se importa com ela e quer vê-la feliz, mas na cama só pensa no seu prazer, talvez você não esteja amando.

Se você diz que a ama, mas desrespeita, agride, descuida, humilha, desfaz, maltrata, eu te digo com certeza: você não está amando, porque amar é muito mais do que dizer.

“O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do cotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.”
José Saramago

Quando eu era um tico insignificante de gente, tinha muita dificuldade com a escrita. Fiz atividades extras e reforços semanais na escola, e a professora passava mais tempo do meu lado, do que dando aula. Algumas palavras simplesmente não conseguia escrever. Tinha uma específica, na qual, sempre – quando digo sempre, quero dizer, absolutamente todas as vezes –  eu errava, mas não errava porque não sabia, e sim porque, na minha cabeça, aquela palavra não existia, ou melhor, eu não conseguia compreendê-la de jeito nenhum. 

Trilhões de ditados, e a professora insistia em pedir aquela palavra, e mesmo assim, verificando todas as vezes o meu erro, ela não entrava na minha mente em sua forma “correta”, simplesmente não entrava.

Certo dia Dna. Amélia estava a corrigir os ditados da semana anterior e de repente perdeu o pouco de paciência que ainda tinha comigo. Aproximou-se e gritou: 

– Eu desisto de te ensinar! Você está me fazendo de idiota, né?

Estremeci e disse:

– Claro que não, professora! Eu tenho muita dificuldade com essa palavra.

E ela mais nervosa ainda, aumentou o tom:

– MEU DEUS DO CÉU! Qual a dificuldade de escrever a palavra CRESCER?

Você escreve CRER e SER todas as vezes! Por que faz isso? Para me tirar do sério?

Me encolhi, e calei-me.

Naquela época eu não tinha muita ideia do porquê aquilo acontecia, mas hoje entendo. Na verdade, eu até sabia escrever a palavra “crescer”, mas ela me assustava. Eu tinha medo dela, e acreditava que se eu a escrevesse, aquilo iria acontecer e muito rápido. Então com minha cabeça ingênua, porém criativa, achei uma forma de me livrar dela! Eu preferia crer e ser, a crescer.

 

Acho que prefiro até hoje.

Eu me sentia vazio e por me sentir vazio precisava preencher-me. Dei uma olhada na gaveta de cuecas, olhei no armário de copos e na fruteira. Procurei por algo no lixo da cozinha, e mais uma vez, sem sucesso. Estava tornando-me descontente e amargo, pois nada encontrava. No ápice de minha amargura dei-me conta de que não acharia nada empolgante nas bagunças de minha vida. Fui às ruas. Aos parques. Coloquei-me em meio a multidões. Andei entre mendigos, socialites, jogadores de futebol e secretárias. Fui a cafés, praças e favelas. Tornei-me drogado e alcoólatra. Larguei as drogas e a bebida. Morei em grandes hotéis e pequenas pousadas. Arranjei grandes trabalhos, fui a grandes eventos. Passei anos tentando preencher-me, quando percebi já haviam pelos brancos em meu rosto e em minha cabeça. Minha pele começara a enrrugar. Estava velho e cansado. Passara anos e anos buscando por algo que nunca descobrira o que era. Estava tão cansado da infelicidade de minha busca, que precisava voltar pra casa. Não tinha mais disposição, não tinha mais ânimo. Abri a porta e tudo estava no mesmo lugar de sempre, mas com muita poeira. Isso pouco me importava. Tirei os sapatos e deitei na cama. Ali viria a confirmação. O que eu havia buscado em outros lugares, em outras pessoas, em outros ares, havia estado sempre ali, tão perto… tão perto que tornei-me cego por não conseguir ver. Estava dentro de mim, e era exatamente o que sou, pois apenas o que sou é capaz de me preencher.